O que fizemos a Cuba? Ou o que não fizemos… (por Leonardo Braga)

Nestes dias, a Assembléia Geral da ONU votou, pelo 16º ano consecutivo, pelo fim do embargo econômico a Cuba. Foram 184 votos a favor do fim do embargo; quase uma unanimidade. Que significado tem isso? Bem, talvez aquele expressado pelo Ministro das Relações Exteriores de Cuba quando afirmou que os EUA promovem uma “guerra econômica brutal” ao seu país e que ela precisa acabar. Hoje em dia, num mundo pós-guerra fria, não mais faz sentido a clivagem e o rótulo Leste-Oeste de outrora. Afinal de contas, acabou a guerra fria. Será a permanência do regime castrista razão suficiente para se manter o embargo? Erramos com Cuba por duas vezes na história. Agimos, nós – mundo ocidental (liberal) – erroneamente com Cuba na guerra fria e no pós-guerra fria ao optarmos pelo embargo sob a liderança dos EUA. Senão, vejamos.

Não há dúvida de que a Revolução Cubana efetivou um regime socialista no país que se preocupou com uma distribuição de riqueza que não havia antes quando da presença de Fulgêncio Batista no poder. É louvável a realização de justiça social que contemple a distribuição de bens sociais de forma mais igualitária para a sociedade. Afinal, somos todos demandantes destes bens para a (tentativa de) plena realização dos nossos objetivos de vida em coletividade – sempre uma combinação difícil essa: o indivíduo e o coletivo. Por outro lado, não há dúvida que o regime cubano não parou no socialismo, mas descambou para o comunismo, para a centralização do poder político nas mãos de um ditador na mais clara manifestação contemporânea dos déspotas esclarecidos do absolutismo monárquico europeu da Era Moderna. Não. Isso não é louvável. É lamentável. Aqui, não podemos mais falar de regime cubano, mas de regime castrista, com o Estado personalizado em seu estadista, com o personalismo exacerbado, com a vaidade descabida.

Passava-se o ano de 1959, quando Fidel Castro assumiu o poder em Cuba. Mesmo que o mundo já estivesse vivenciando a chamada “coexistência pacífica” entre EUA e URSS – desde 1953, com a morte de Stalin e dos casos da Crise de Suez e das Revoluções Húngara e Polonesa em 1956 – a guerra fria estava sendo transplantada para a América Latina e aqui se instalou dois anos depois, quando, pela preocupação gerada com regime cubano, houve a fracassada tentativa de tirar Castro do poder no famoso episódio da Invasão à Baía dos Porcos, em 1961. A rivalidade Leste-Oeste vivenciou, como nunca antes, o seu ápice desde então e de modo especial com a subseqüente Crise de Mísseis de Cuba, em 1962. Por pouco, não testemunhamos uma III Grande Guerra – uma guerra que seria nuclear.

Ainda em 1962, houve outro episódio reflexo da guerra fria aqui na América Latina, ou melhor, nas Américas: a (controversa) “expulsão” de Cuba da OEA e o início do embargo econômico à ela imposto. Penso que não erramos propriamente com Cuba em 1961, quando não conseguimos tirar Castro do poder pela força. Mas erramos seriamente com Cuba ao “expulsa-la” da OEA. Teria sido um contra-senso retirar pela força Castro do poder quando aquilo que o mundo liberal defende é exatamente a liberdade. E este conceito está explícito nas normas internacionais, como no caso da própria Carta da OEA ao garantir aos povos sua autodeterminação e não ingerência em assuntos internos. Mas, em 1962, sim, erramos.

Não deveríamos ter marginalizado Cuba do convívio dos países americanos. Pois essa seria mesmo a nossa chance de acabar com o regime comunista e não dar força a ele. O Brasil bem que tentou, mas não obteve êxito em convencer os outros países de que era melhor manter Cuba sob a esfera Ocidental (liberal) do que a entregar definitivamente ao alinhamento soviético. Era o pensamento dos liberais não-intervencionistas – o convívio de países não-liberais com os liberais faz com que os primeiros, a longo prazo, realizem que somente em bases liberais é que se consegue prover verdadeiro bem-estar às suas populações pela própria lógica liberal política e econômica. Aqui, a liberdade de pensamento, de expressão e a satisfação de necessidades através do comércio internacional são as referências para a geração desse bem-estar. Fizemos o contrário. Infelizmente. A cegueira ideológica da guerra fria fez com que expulsássemos Cuba de casa como a uma filha grávida sem marido.

O que deveríamos ter feito era exatamente, pelo convívio comercial, econômico, industrial e político, mostrar quão desviante da geração de bem-estar era o regime cubano e quanto a ausência de um modelo liberal estava esvaziando a sociedade cubana das possibilidades de realizações das pessoas num país verdadeiramente livre. Perdemos a nossa primeira grande chance de enfraquecer o comunismo em Cuba.
Veio o pós-guerra fria e a história nos deu mais uma chance. Acabou o conflito Leste-Oeste e chegou-se a se defender – não sem razão, porém com algum exagero naquele momento – o “fim da história”. O mundo era, por excelência, liberal, ou melhor, neoliberal. A referência do liberalismo político e econômico, no binômio democracia-capitalismo, era o que havia. Derrotado o socialismo real, o que mais restava da antiga ordem? Cuba. Pois é, Cuba. Foi aí que erramos novamente com Cuba. Deveríamos ter incentivado o fim do embargo econômico desde então. A lógica era a mesma de 1962: mostrar que o mundo liberal melhor satisfaz as realizações das pessoas que o mundo não-liberal. Deveríamos permitir que o comércio internacional inundasse Cuba com suas ofertas variadas de produtos e de satisfações mil.

Somos nós que alimentamos o regime castrista e não o próprio Castro! É nossa teimosia na exclusão que preserva Cuba como um ponto fora da curva da lógica internacional de convívio liberal. Não foi Cuba que obteve sucesso, fomos nós que fracassamos. Não é possível construir uma nação quase que somente à base de remédio e esporte, a não ser que permitamos isso, como o fizemos. Quando mudaremos nossa postura? Há dezesseis anos, exatamente o tempo em que a URSS foi desmantelada (1991), que o fim do embargo a Cuba é votado, porém mantido.

O que fizemos a Cuba? Ou o que não fizemos?

É preciso realizar que a mudança do regime não depende da queda de Castro, depende de nós, mundo Ocidental, liberal, amante da diversidade política e da democracia, desejoso do desenvolvimento econômico e do bem-estar que ele produz. Quando Bush reafirma que somente terminará com o embargo com a queda de Castro, comete um erro; erro de não antecipar a sua queda pela abertura. Sim, a abertura política depende da abertura econômica e o povo pode experimentar isso ao longo das gerações, o que, infelizmente, está 50 anos atrasado.

Não se trata de ingerência. Trata-se de auto-reflexão, de autocrítica e de capacidade de discernimento. Não se trata aqui de defender o american way of life, mas o liberal way of life, de modo que cada povo adapte os ideais liberais de acordo com suas necessidades e reinterpretações numa compreensão mais ampla liberal. Cuba pode fazer isso! E nós devemos ajuda-la!

Leonardo Braga (RINT/UniLaSalle)

Esta entrada foi postada em 01 Nov 2007 às 12:13 e está categorizada em Visão de Mundo. Você pode seguir qualquer resposta para esta entrada pelo canal RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta, ou trackback do seu próprio site.

2 Respostas para “O que fizemos a Cuba? Ou o que não fizemos… (por Leonardo Braga)”

  1. Ludmila Cid diz:

    Muito interessante o artigo do Professor Leonardo Braga, mas discordo da sua posição.Estive em Cuba há uns dois anos e vi um povo que apesar das condições materiais precárias, era um povo orgulhoso de sua nacionalidade e de sua força de sobrevivência. Com todos que conversei, de diferentes formações (engenheiros,garçons,copeiros, guias, músicos, professores,etc…), havia um sentimento de causar inveja a nós, brasileiros, tão desacreditados de nosso País. Todos deveriam visitar Cuba, pois saberiam o que é abrir mão do individual em favor da coletividade. Cuba vive independente de nós. Ditadura (na visão liberal) ou não, encontrou um modo de vida que não se enquadra em nossos parâmetros burgueses, globalizados e idiotizados. É isso que não entendemos ou, se entendemos, não nos conformamos. Não sabemos lidar com o diferente…Uma pena! Nós não fizemos ou deixamos de fazer nada. Cuba se fez e se faz sem o nosso mundo capitalista. Ela vive independente de qualquer um de nós.
    É lógico que se o embargo econômico terminasse, as condições de vida seriam melhores. Mas, qual o preço a pagar por isso? Valeria????? Cuba vai bem. Muito bem.

  2. George Wilson dos Santos Sturaro diz:

    Também não creio, e a História substancia minha crença, que o liberalismo, logo se permitisse sua entrada em Cuba, respeitaria a diferença. Não é a homogeneização a mais marcante característica da globalização contemporânea? É de se pensar no quão benfazejo é a alardeada liberalização… ou se resumem ao consumo as necessidades humanas?

 

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